quarta-feira, 5 de maio de 2010

DAS CATEGORIAS ONTOLÓGICAS E DO DISCURSO DE BEM VIVER

Existem duas espécies de besteiras: a) as verdadeiras; b) as não-verdadeiras. Isto implica que as besteiras verdadeiras possuem o estatuto ontológico de "ser", enquanto as besteiras não-verdadeiras não possuem estatuto de coisa nenhuma. São isto sim, desavergonhadas mentiras.
Todavia no manto de um construto ontológico deve-se lembrar da natureza de duas espécies de verdades: a) besteiras; b) as não-besteiras. Poderíamos seguindo o léxico da lógica formal aceitar uma não-verdade besteira e uma não-verdade não-besteira.
A esta altura fui consultar o meu mestre Drummond de Andrade (consulta bibliográfica, não-mediúnica) que me brindou com este belíssimo poema, que não está agasalhado em nenhuma categoria ontológica e é bonito pra caramba:


AMAR AMARO

Por que amou por que amou
se sabia
PROIBIDO PASSEAR SENTIMENTOS
ternos ou desesperados
nesse museu do pardo indiferente
me diga: mas por que
amar sofrer talvez como se morre
de varíola voluntária vágula evidente?
ah PORQUE AMOU
e se queimou
todo por dentro por fora nos cantos nos ecos
lúgubres de você mesm(o,a)
irm(ã,õ) retrato espéculo por que amou?
Se era para
ou era por
como se entretanto todavia
toda via mas toda vida
é indagação do achado e aguda espostejação
da carne do conhecimento, ora veja
Permita cavalheir(o,a)
amig(o,a) me releve
este malestar
cantarino escarninho piedoso
este querer consolar sem muita convicção
o que é o inconsolável de ofício
a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima
a vida também
tudo também
mas o amor car(o,a) colega este não consola nunca
de núncaras
Carlos Drummond de Andrade.

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